Campanhas coloridas no LinkedIn, exaustão silenciosa no escritório.
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[nossas edições anteriores]
#17 – Seu Planejamento de 2026 Sobrevive ao Carnaval?
#16 – O Jogo dos Tronos Corporativo
🔴 precisamos falar sobre
Janeiro chegou e, com ele, a fita branca na lapela virtual das empresas. O “Janeiro Branco” inunda as redes sociais com posts sobre a importância da saúde mental, dicas de autocuidado e palestras motivacionais. As intenções são, na maioria das vezes, boas. No entanto, existe um abismo perigoso entre a campanha de marketing e a realidade da segunda-feira de manhã.
Em 2026, ainda vemos organizações tentando tratar problemas estruturais com soluções cosméticas. Oferecer yoga, meditação no aplicativo e, claro, o famoso happy hour (com ou sem álcool) virou o kit básico de “bem-estar”. Mas vamos ser honestos: cerveja artesanal na sexta-feira não apaga o impacto de uma semana de 60 horas, prazos irreais e lideranças tóxicas. Achar que benefícios de descompressão curam o esgotamento é como tentar tratar uma fratura exposta com um band-aid colorido.
O burnout não acontece porque o funcionário “não sabe relaxar” ou “precisa respirar fundo”. Ele acontece, fundamentalmente, por causa de como o trabalho é desenhado, distribuído e gerido. Enquanto o RH foca no “fruto” (o sintoma do estresse), a “raiz” (a cultura organizacional e a carga de trabalho) continua apodrecendo.
— O elefante na sala: Carga de Trabalho
A Organização Mundial da Saúde (OMS) oficializou o burnout como fenômeno ocupacional há anos, definindo-o como estresse crônico no local de trabalho que não foi administrado com sucesso. Note a ênfase: no local de trabalho. Não é um problema pessoal do colaborador, é um problema de gestão.
O cenário de 2026, hiperconectado e impulsionado por IA, paradoxalmente aumentou a pressão. A promessa de que a tecnologia nos daria mais tempo livre falhou; ela apenas aumentou a expectativa de velocidade. Quando olhamos para as causas reais do adoecimento mental nas empresas, raramente a falta de festas aparece no topo. O que aparece é:
- Sobrecarga insustentável: Uma pessoa fazendo o trabalho de três (com o salário de meia).
- Falta de autonomia: A cobrança pelo resultado sem o poder de decisão sobre como chegar lá.
- Injustiça organizacional: Favoritismos, falta de reconhecimento e disparidade salarial.
Um estudo recente sobre bem-estar corporativo aponta que colaboradores preferem ter clareza de metas e respeito ao horário de descanso a salas de jogos ou geladeiras abastecidas. O happy hour vira uma obrigação social cansativa quando o time está preocupado com os e-mails acumulando durante a festa. Se a cultura exige que se trabalhe até a exaustão para “merecer” o descanso, o descanso nunca será reparador.
⚠️ não terminamos ainda
Onde entra a Segurança Psicológica nisso tudo? Ela é o antídoto que o voucher de terapia não consegue substituir.
Segurança psicológica, termo popularizado por Amy Edmondson, não é ser “legal” ou evitar conflitos. É saber que você não será punido ou humilhado por falar a verdade, por admitir um erro ou, ainda, por dizer “não dou conta”. No Brasil, culturalmente, dizer que está sobrecarregado ainda é visto por muitos gestores como sinal de fraqueza ou incompetência. Isso cria um ciclo de silêncio em que o colaborador aceita mais demandas do que pode suportar para parecer “vestir a camisa”, entra em sofrimento psíquico, e o gestor continua alheio até o momento do atestado médico ou do pedido de demissão.
Dados de consultorias de saúde ocupacional mostram que ambientes com baixa segurança psicológica têm taxas de turnover até 40% maiores. O custo de substituir um talento, treiná-lo e integrá-lo supera, em muito, o custo de ajustar a carga de trabalho e treinar a liderança para uma escuta ativa. Em 2026, saúde mental não é mais um “benefício flexível”. É um pilar de sustentabilidade da cultura e obviamente, do negócio. Se a sua empresa promove o Janeiro Branco mas mantém o gestor que grita, ou a cultura que glorifica virar a noite, a mensagem que fica é de hipocrisia, gerando cinismo e desengajamento.
— Do discurso à estrutura
Para que este Janeiro Branco não seja apenas mais um evento no calendário de endomarketing, a abordagem precisa mudar de “indivíduo” para “ambiente”. O foco deve sair do “autocuidado” (jogar a responsabilidade para o funcionário) para o “cuidado mútuo, cultural e estrutural”.
Isso exige coragem para mexer em processos:
- Revisão de Job Design: As funções são humanamente possíveis de serem realizadas dentro da jornada contratada?
- Liderança Humanizada (de verdade): Treinar líderes não apenas para bater metas, mas para identificar sinais de exaustão e, principalmente, para acolher a vulnerabilidade sem julgamento.
- Limites Claros: Respeitar o direito à desconexão. E-mail de trabalho no domingo à noite não é proatividade, é falha de planejamento ou ansiedade da liderança sendo transferida para a equipe.
O happy hour é ótimo para celebrar vitórias, mas ele não serve para esconder derrotas na gestão de pessoas. Segurança psicológica é permitir que as pessoas sejam humanas, e não máquinas que precisam de manutenção ocasional. O verdadeiro indicador de sucesso de uma estratégia de saúde mental não é quantos funcionários baixaram o app de meditação, mas quantos se sentem seguros para levantar a mão e dizer: “preciso de ajuda”, e serem, de fato, ajudados. Menos confete, mais coerência. É isso que esperamos para 2026.

