é news, mas não é fake #19 | Enquanto o RH conta os dias do feriado, a rua ensina como organizar o caos

O Carnaval Não é Folga, é Tecnologia de Gestão.

Tempo de leitura: 6 minutos


[nossas edições anteriores]

#18 – Burnout Não se Resolve com Happy Hour: Onde Está a Saúde Mental?

#17 – Seu Planejamento de 2026 Sobrevive ao Carnaval?


🔴 precisamos falar sobre

Fevereiro chegou e, na maioria das empresas, a conversa sobre o Carnaval gira em torno de duas coisas: calendário de folgas e gestão de ponto. O RH se preocupa com a escala, o CEO se preocupa com a produtividade perdida na quarta-feira de cinzas. Mas, se olharmos com cuidado, estamos desperdiçando o maior e mais intenso laboratório de gestão disponível no Brasil.

Enquanto o modelo tradicional de comando e controle continua produzindo burnout, desengajamento e a sensação de “cada um por si”, o Carnaval opera um milagre anual: mobiliza milhares de pessoas em torno de um propósito comum, com criatividade e pertencimento, e com muito menos hierarquia do que qualquer organograma ousaria desenhar. A pergunta que deveríamos fazer não é “o que o carnaval tem a ver com RH?”, mas sim: como é que a gente ainda não está aprendendo com isso?. O Carnaval não é apenas uma festa; é uma tecnologia social avançada para lidar com a complexidade.

A “Segunda Vida” e a falência do modelo industrial

Para entender por que nossas empresas estão doentes, precisamos olhar só um pouco para a teoria. Mikhail Bakhtin, filósofo da linguagem (que no carnaval seria um puxador de samba) define o Carnaval como uma “segunda vida” do povo. Nessa segunda vida, as hierarquias são suspensas, a comunicação é livre e as normas rígidas da “vida oficial” são temporariamente desligadas.

Conteúdo do artigo

O problema é que o mundo corporativo ainda opera na lógica da “vida oficial” do século passado: o modelo industrial que separa a fantasia profissional dos outros papéis que exercemos. Esse modelo foi genial para linhas de montagem previsíveis, mas cobra um preço alto hoje: ele fragmenta o ser humano. De um lado, quer o “corpo-trabalhador” que bate meta; do outro, deixa a pessoa real, com emoções e história, do lado de fora da catraca. O psiquiatra Christophe Dejours chama o resultado disso de “A Loucura do Trabalho”: o sofrimento de quem se sente apenas uma peça de engrenagem. No Carnaval, acontece o oposto. Existe a Integralidade: ninguém vai para o bloco fantasiado de “analista pleno” (até vai, mas pela piada e pela crítica). As pessoas vão inteiras, com seus corpos, vulnerabilidades e potências. E é justamente essa plenitude que gera engajamento real, algo que nenhuma pesquisa de clima consegue comprar.

⚠️ não terminamos ainda

Se a sua empresa parece travada, talvez ela esteja sofrendo de excesso centralidade. Deleuze e Guattari nos ajudam a entender a estrutura:

  • Modelo Árvore (Empresa Tradicional): Tem raiz fixa, hierarquia rígida, decisões centralziadas que só sobem e descem.
  • Modelo Rizoma (Bloco de Carnaval): Funciona como uma rede subterrânea conectada. Não tem um centro único de comando. É uma “multidão inteligente” que se auto-organiza e prolifera.

Os blocos são um rizoma por natureza, descentralizado, misturado, potente. Nele ocorre a verdadeira liderança situacional, quem está com o estandarte ou puxando o samba no momento, quem dança mais feliz, casal que se forma e se desfaz espontaneamente…não é algo ensaiado e determinado por quem tem o cargo. Se uma rua está bloqueada, o bloco “ginga”, se fragmenta e se reagrupa mais à frente. Isso é agilidade na veia, muito antes do termo virar moda no LinkedIn. A “estética da gambiarra” e do improviso não é falta de profissionalismo; é uma competência de adaptação num cenário de incerteza.

Trazendo o Bloco para o Escritório (Sem perder a seriedade): Não estamos sugerindo transformar o escritório em uma festa eterna. A proposta é incorporar a “lógica carnavalesca” para curar a rigidez corporativa. Como fazer isso?

  1. Reconheça a Cultura Invisível: Assim como o Carnaval acontece nas frestas e no improviso, a cultura real da sua empresa não está no manual de conduta. Ela está nas regras do jogo que as pessoas seguem quando a liderança não está olhando. O RH precisa mapear esses “blocos internos” (grupos de afinidade e influência) em vez de tentar sufocá-los.
  2. Crie Espaços de “Segunda Vida”: Institucionalize momentos onde a hierarquia é suspensa. Fóruns ou rituais onde o estagiário possa falar a verdade para o diretor sem medo de retaliação. Isso é segurança psicológica estrutural.
  3. Aposte na Autogestão: O Carnaval prova que multidões se organizam com combinados mínimos e muita confiança. Que tal começar a tratar os colaboradores como adultos, distribuindo poder de decisão para quem está na ponta do problema?

A Ginga como estratégia

O Brasil tem algo único para exportar: uma prática social que sabe lidar com o caos e a diversidade. Enquanto importamos modelos de gestão de empresas de outras realidades, esquecemos que temos em casa a fórmula de organizações flexíveis, resilientes e vivas. Na Santo Caos, usamos essa lente para diagnosticar o abismo entre a cultura declarada (o desfile oficial) e a cultura praticada (o bloco na rua). Para 2026, o convite é claro: sua empresa vai continuar sendo uma árvore rígida que quebra na tempestade, ou vai aprender a ser um bloco que ocupa a cidade?

Nos procure para falar quando quiser alavancar seus resultados, de preferência antes ou depois do carnaval.

Foto de Alexandre Dias

Alexandre Dias

Publicitário, com especialização em digital e branding. Atualmente trabalho com branding e gestão de marcas. Combino branding, digital, performance e estratégia para (re)posicionar marcas.
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